Fruticultura, um doce mercado

Luiz Humberto França

Saborear uma fruta gostosa colhida na hora, de preferência sentado à sombra de uma frondosa árvore. Para muita gente, apenas uma lembrança do passado. Tempos em que o consumo de frutas no país ainda engatinhava e quando ninguém pensava em vender aqueles frutos que muitas vezes coloriam o chão das fazendas. Hoje nada se perde. E, de lá pra cá, o consumo aumentou e avançou na esteira da tendência por produtos naturais, com imagem de alimento saudável. Era o que faltava para que o Brasil consolidasse sua vocação para a fruticultura.

A colheita tem destino certo. O que não vai para a mesa do brasileiro, abastece os segmentos de produtos prontos, como doces de corte, calda ou em massa, e sucos. O mercado abastece também a indústria, no fornecimento de polpas e molhos, no caso do tomate.

A fruticultura nacional, que é heterogênea, também está de olho no mercado externo, e aos poucos vai conquistando a preferência dos consumidores de outros países. O Brasil, embora seja o segundo maior produtor mundial de frutas frescas, com 32 milhões de toneladas por ano, perdendo só para a China, exporta pouco, apenas 1,5% desse total. Em 2000, faturou US$ 170 milhões. Atualmente, manga, mamão, maracujá, melão, pêssego, nectarina, ameixa e uva, são as frutas que despertam o maior interesse pelo sabor, cor e textura. O governo federal tem incentivado as exportações, mas esbarra no atraso dos processos produtivos e muitas vezes na falta de qualidade. Outros entraves são as barreiras tarifárias, técnicas e fitossanitárias que impedem o acesso no mercado externo com força total. Enquanto isso, o Ministério da Agricultura e Pecuária negocia a abertura de mercados mais restritivos como União Européia, Estados Unidos e Japão.

Um bom exemplo desse avanço foi obtido pelos produtores de manga irrigada do médio São Francisco, que engloba Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Pernambuco, que já vendem para a Europa e preparam-se agora para entrar no mercado norte-americano. A expectativa é de uma comercialização de 25 mil toneladas este ano.

A arrancada para as exportações animou um grupo mineiro da região do Triângulo e Alto Paranaíba que sonha com o promissor negócio a médio prazo. Por enquanto, a ordem é investir em qualidade. O grupo faz parte de um pólo de fruticultura que nasceu em 1997 com a finalidade de organizar melhor a cadeia produtiva. A previsão para este ano é de uma safra de 2.200 toneladas, que inclui laranja, abacaxi, maracujá, figo, mamão, banana, goiaba, uva e coco. Um número expressivo, já que dos 95 mil hectares de área plantada com frutas no estado, 55 mil estão nessa região. Quem participa da Fruti-vale, como foi batizado o projeto, recebe a assistência técnica de agrônomos da Embrapa e da Emater. A Epamig também participa e montou um campo experimental para a pesquisa de novas variedades. No laboratório de biotec-nologia são feitos testes de produtividade e de incidência de pragas.

Novas técnicas. Os coordenadores da Frutivale chegaram a pensar em usar na região a irradiação de cobalto. Trata-se de um sistema muito usado para esterilizar a fruta e que tem dado bons resultados, uma vez que tem a capacidade de duplicar o tempo de vida do produto na prateleira. A idéia dividiu opiniões, virou polêmica e foi descartada no momento.

O pecuarista Vinícius Cardoso soube usar a tecnologia a seu favor. Parte da produção de mangas da fazenda dele, no município de Conceição das Alagoas, passa pela estufa de carbureto.

O processo acelera a maturação da fruta por igual e dá uma coloração mais bonita. Marcelo Fidélis, coordenador da Frutivale e técnico da Epamig, dá a dica de que o ideal para quem quer começar é escolher uma área pequena, de um a quatro hectares, que pode ser aumentada quando o produtor tiver mais experiência A mão-de-obra necessária é de dois trabalhadores por hectare.

Valor agregado com fruticultura e pecuária

Na fazenda Lago Azul no município de Iturama, pontal do Triângulo Mineiro, Cláudio Pupim dedica-se ao plantio da uva, um dos pioneiros na região. Uma cultura que demanda mão-de-obra mas oferece alta rentabilidade por unidade/área. Para ele, que sempre lidou com gado nelore, a vitivi-nicultura surgiu como alternativa para aumentar a renda da propriedade. Pupim tem 800 cabeças de nelore e consegue boa economia aproveitando o esterco para adubar parte da lavoura, o restante da cobertura é feito com produtos químicos. Numa área de dois hectares, Cláudio colhe 56 toneladas de uva por ano que vão. O destino são os mercados de Goiânia, Campo Grande e São Paulo. Minas Gerais é o oitavo estado produtor e ele conseguiu obter preço de mercado: em média um real por quilo. Através de um sistema de arrendamento, emprega quatro pessoas, que fazem o manejo e a colheita. Os empregados ficam com 20 por cento de tudo que é produzido.

Na eterna mutação da natureza, como disse Shakespeare, a fruticultura mostra que ainda tem um longo caminho a percorrer. O segmento é novo e deve crescer muito nos próximos anos, tanto em quantidade quanto em qualidade.